quinta-feira, 22 de dezembro de 2016

BOAS FESTAS!!!!

Caros(as) companheiros(as)!

Mais um ano vai chegando ao fim e, com ele, todo percurso que arduamente empreendemos. Caminhos conhecidos, novas experiências, constantes aprendizados... E aqui estamos nós! Nossa vida é assim: uma contínua luta com a totalidade que nos habita, dentro e fora... Ciclos ininterruptos com a intenção de buscarmos novo sentido. Parafraseio Nietzche: "A questão não é qual o sentido da vida, a questão é quantos sentidos você dará a sua vida.”

Sendo assim, minhas palavras buscam o meu próprio sentido, tudo aquilo que mais valorizo em meu percurso e que não seria possível sem sua existência. Talvez, minha sincera alegria e profunda gratidão possam representar essas poucas palavras que, com sentido, aqui escrevo.

Vivemos momentos de grandes instabilidades no transcorrer do ano. Nosso país passou, e ainda passa, por um importante processo de transformação, incluindo o cenário político-econômico. Porém, como poucos dizem, é exatamente na crise, ou caos, que alavancamos novas oportunidades. É, justamente, na crise que podemos encontrar outro/novo sentido. Porém, para tanto, devemos aceitar os caminhos que se abrem no momento que saimos dos padrões normativos de nosso comportamento. Dos padrões que impedem nossa caminhada psico-espiritual. Daí minha gratidão: tentarmos cumprir nossa missão anímico-espiritual na busca de outros recursos para lidar com os aspectos inevitáveis e naturais de nossas próprias vidas. Resistir e superar! Cair e levantar! Desanimar e capacitar! Morrer e viver! Renascer! Gratidão à nós, que em meio as intempéries da vida continuamos lutando em busca de nossas resgates, de novos sentidos. E, está aí também minha alegria: crer que podemos ser fortes o suficiente para adentrarmos em zonas de difícil acesso; resilientes, para confrontarmos continuamente nossas feridas; disciplinados, pois toda batalha exige estudo, síntese e conclusão contínuas...

Lembro-me do evangelho quando nos diz: “Entrai pela porta estreita (larga é a porta e espaçosa a estrada que conduz à perdição, e muitos são os que entram por ela), porque estreita é a porta e apertada a estrada que conduz à vida, e poucos são os que acertam com ela. (Mateus 07:13-14)

2016 está em seu final, mas nós estamos eternamente em construção! E, creio eu, que toda e qualquer construção tem apenas e unicamente três possíveis caminhos: “Quando a situação for boa, desfrute-a. Quando a situação for ruim, transforme-a. Quando a situação não puder ser transformada, transforme-se." (Viktor Frankl)

Boas festas e um 2017 abençoado para todos nós!
Fique com Deus!

PAZ e BEM,
Fabiano



domingo, 28 de agosto de 2016

Para estar com o outro - Parte 1: A (des)construção da confiança

Adentrei propositalmente o ambiente. Havia um alegre sussurro por lá. As mesas estavam dispostas uniformemente. Uma suave música tentava chamar os clientes para além de suas próprias vozes. E. também, havia o cheiro. Por sorte sobrara uma mesa, sincronicamente esperando por mim. A vista era fantástica, permitia-me ver a todos. Porém, desta vez, estava concentrado em mim, afinal estava sozinho. Não me demorei em escolher meu prato, tamanho o desejo de meu corpo. Tristemente meus olhos percorreram novamente o ambiente e lembrei-me de conversas com meus pacientes, onde salientava a importância da solitude. Lá estava eu novamente... Contatei meu celular e logo estava lendo uma interessante crônica onde falava da construção amorosa. Estava envolvido com a repercussão do tema após uma longa conversa no dia anterior. Algumas interessantes vontades começaram preencher espaço dentro de mim a cada novo parágrafo que lia. Entre um espaço e outro, permitido pela leitura, vozes ao meu lado se faziam presentes. Não me importei, até finalizar a leitura e descansar o peso da minha cabeça em meus próprios ombros, naturalmente tentando buscar um pouco de reflexão. Fui curiosamente "atrapalhado" pela discussão do casal da mesa ao lado direito e, antes que pudesse me interessar pelo conteúdo da discussão, lembrei-me do tempo em que ocupava esse mesmo lugar. Lugar estranho! Senti-me incomodado... pensei no incômodo que levei outrora para meus irmãos, quando apenas buscavam alimento para o corpo e contato para a alma. Percebi-me em tórrido arrependimento, até auscultar a conversa que transcorria ardentemente. Havia um incômodo dele, e um pedido mais intenso, para que ela mostrasse o conteúdo expresso no celular dela. Cuidadosamente, ela olhou para meu lado, tentando perceber se estava participando da conversa deles. Pus minha atenção em meu prato e em minha taça de vinho, que já estavam presentes na minha frente. Ele insistia com afinco para ver o conteúdo ocultado por ela, que pacificamente tentava acalmá-lo, justificando que poderia verificar o conteúdo mais tarde. Por fim, ela venceu, ele acalmou-se e puderem, por fim, escolher seus pratos. Achei interessante participar da discussão como ouvinte e queria estar presente minutos mais tarde para assistir o desfecho. Mas seria impossível, infelizmente. Porém, coloquei-me a assistir os outros casais que desfilavam ao meu redor, num misto de interesse e curiosidade, ainda sem saber onde me levaria essa intrometida atitude. No meu lado oposto, havia outro casal, creio que estavam saindo recentemente, pois havia um hiato entre uma frase e outra. Reparei também, que a mulher conduzia o diálogo com mais afinco, mostrando interesse por Tony Bennett e, os pais do rapaz, por Willie Nelson. Que interessante! Quando havia aquele silêncio constrangedor, ele afirmava repetida vezes: "que mais...?!". E, então, ela se punha a falar novamente, traçando outra história onde continha uma estranha semelhança em suas frases: "meu ex...". Fiquei a pensar o que ela estava fazendo lá, já que falava enfaticamente de  uma relação anterior. Enfim, logo me desinteressei! A minha frente à esquerda, havia um casal que aparentemente já se conheciam, olhavam-se com intimidade, havia uma conversa pausada e harmônica, além dos semblantes permanecerem serenos e conectados na conversa que, infelizmente, não podia auscultar devido a distância. Não obstante, minha impressão foi de proximidade e participação. Foi, então, que avistei aqueles que fariam a diferença pra mim naquela quente noite de sábado. Eles me permitiram ver para além deles, inspirando as palavras que seguem. Não conseguia ver o homem do casal, ele estava virado com suas costas para mim. Mas enxergava muito bem a bela mulher que dirigia com expressão de cuidado suas palavras até seu par. Foi bonito de ver! Provavelmente, teria em torno de 30 anos, talvez uma década a menos do que a mulher do primeiro casal. Tinha uma postura elegante e gestos extremamente medidos, o que a deixava ainda mais bela. Tinha longos cílios que foram mantidos no mesmo lugar por todo o tempo que estive a observar. Seus olhos olhavam diretamente ao seu interlocutor e, por vezes, suas mãos buscavam a bebida que lentamente degustavam, como um veneno que necessita de tempo para agir. As mãos dela também buscavam seu par, num ato expressivo de carinho contínuo, pois tudo era harmônico ali. Olhos, mãos, postura, ações... seu todo estava presente e mostrava-se curiosamente único ou, se preferirem, inteiro. Por vezes, percorria o espaço com seus olhos, como que buscando alguma resposta, e retornava ao seu interlocutor integralmente. Achei aquilo tão incrível, de tão simples. Porém, antes de concluir, fui sorrateiramente interrompido pelo primeiro casal, pois num súbito o rapaz se levantou afirmando precisar ir até o carro. Tão logo levantou-se, me fiz presente novamente, e em segundos a mulher pegara seu celular e permanecera com seu dedo indicador grudado na tela, como que apagando o motivo do incômodo pregresso. Tive vontade de ir falar com ela, mas o máximo que fiz foi dizer com meus olhos que estava a par de sua ocultação. Foi, então, que a catarse aconteceu e percebi o que precisa enxergar.

Os relacionamentos verdadeiros permitem construções coletivas, porém, inicialmente, somos singularidades. É claro. Tudo começa, ou deve começar, conosco. Cada rica possibilidade de construção bilateral, precisa ser explorada em sua própria individualidade. Falemos da confiança, por exemplo. Sim, a confiança é, como costumam dizer, um alicerce necessário no relacionamento entre duas pessoas que se amam. Não a confiança que usualmente falamos, genericamente e taxada como normal, ou seja, pertencente a categoria das normopatias. Refiro-me a confiança que permite-nos com-fiar. Não a confiança vista enquanto um dado prévio e necessário, mas sim como algo que atribuo valor na relação com o outro. Algo que fio junto, que demanda construção e, naturalmente, tempo. Com-fiar é fiar com, necessitar de alguém, entregar-se na direção do outro, estabelecer entrega ao seu par, criar fiança, afiançar minha vida ao outro. Não creio que seja fácil, ainda mais na modernidade que vivemos, onde com um click apagamos ou encontramos novo(a) pretendente. A construção da confiança começa comigo, mas necessita do outro. Fiança unilateral, não permite a continuidade, a própria construção. E, foi essa mesma construção que pude ver refletido no olhar daquela elegante criatura à minha frente. Ela "falava" pelos poros, por cada gesto seu que estava com seu par, estava inteira ali, nada à sua volta importava mais que as doces palavras possivelmente pronunciadas ou as mais rasas reflexões daquele momento. Senti ligeira inveja branca e alegria considerável. Como se tivesse encontrado nos olhos daquela doce garota a resposta para minha pergunta. Consegui assistir sua integridade, seu foco e a manutenção da sua própria escolha. E, como homem, intui a felicidade expressa naqueles gestos tão banais que, provavelmente, fazem dele o "escolhido"! Ademais, consegui assistir presencialmente, embora de uma maneira não tão natural, o que significa respeito. Sim, porque é claro que poderia mexer os olhos em outras tantas direções, como poucos não fazem, percorrendo aleatoriamente seu ambiente. Lembro-me de Bernardo Soares quando dizia que "não vemos o que vemos, vemos o que somos". Embora meus olhos estivessem vendo, vi por além deles, vi a seriedade de cada encontro simples e a importância de estarmos inteiro em nossas escolhas, principalmente a amorosa. E, Rubem Alves, com sua eterna sabedoria, soprou em meus ouvidos: "Mas é preciso escolher. Porque o tempo foge. Não há tempo para tudo. Não poderei escutar todas as músicas que desejo, não poderei ler todos os livros que desejo, não poderei abraçar todas as pessoas que desejo. É necessário aprender a arte de “abrir mão” – a fim de nos dedicarmos àquilo que é essencial". O essencial é ser inteiro com nossa escolha, com o que desejamos a nós e abrirmos mão de interesses escusos a própria escolha. A (des)construção da confiança incita o compartilhar de maneira única e íntegra, distinta dos interesses do entorno. Duas realidades, dois casais no mesmo espaço, e uma distância enorme entre eles. Podemos outorgar nossa reflexão? Cabe aqui breve colocação, talvez apropriada, que me lembra um de meus ouvintes nos últimos dias: posso, ao mesmo tempo, manifestar minha idade, independente dela própria. Posso rolar no chão com meus filhos e torna-me criança no mesmo momento que sábio ao ouvir o que vovô tem a me dizer. Entretanto, quando o assunto é sobre amantes: "Os jovens amantes procuram a perfeição, velhos amantes aprendem a arte de unir retalhos e descobrem a beleza na variedade das peças..." (do filme "Colcha de Retalhos").

Provavelmente, a beleza esteja no gesto de estar inteiro, íntegro à própria escolha, utilizando as experiências como pano de fundo para amorosamente compartilhar, fiá-las com respeito em direção ao outro, conquistando o primeiro grande desafio do relacionamento a dois: a confiança.

segunda-feira, 22 de agosto de 2016

Perda Inexiste!

Faz alguns anos que me afastei propositalmente de meus escritos, afastando-me, assim, de mim mesmo. Hoje, por alguma interessante razão, o dia amanheceu diferente, mesmo eu abominando as temperaturas mais frias do ano. Logo percebi que voltaria a escrever, o que faço agora...

É redundante dizer que as experiências nos trazem amadurecimento... Porém, os últimos anos constataram veemente essa premissa: algo em mim cresceu diferente! Com caráter singular tomou forma distinta, nada anódino e absolutamente não-insípido. Sempre é muito complexo definir um sentimento por inteiro... 

Rico, porém, é percebê-lo por entre os dedos: um interstício. Percebê-lo entre algo que paira como sonho e o que se mostra tragicamente na realidade. Percebê-lo como algo que desvela no instante súbito entre a imaginação e a ação. Sendo assim, aquilo que se quer e o que, de fato, se é. Lembro-me de Fernando Pessoa:

"O que me dói não é 
O que há no coração 

Mas essas coisas lindas 
Que nunca existirão... 

São as formas sem forma 
Que passam sem que a dor 
As possa conhecer 
Ou as sonhar o amor. 

São como se a tristeza 
Fosse árvore e, uma a uma, 
Caíssem suas folhas 
Entre o vestígio e a bruma."

(Cancioneiro, O que me dói não é)

Sim, o que me dói não é a aspereza do sofrimento, nem a suavidade do carinho: eles simplesmente são! O que me dói é não percebê-los. ou não tê-los. O que me dói é a não atuação dessas entidades, que desembocam no interstício, na indefinição, na secção. Como que não fossem, embora existam. Minhas últimas experiências apontam para uma realidade não antes vivida: a covardia que inviabiliza a ação, mas sonha com ela. Aquilo que seduz pela forma, mas não determina sua existência, embora ainda assim exista. 

Percorri nesses tempos o caminho que visualiza a meta ou o propósito, mas não externaliza a ação nessa direção. Como o viajante que estuda o caminho, traça a melhor rota, estabelece o ritmo, antecipa as intercorrências, promete a chegada, mas não sai do ponto de partida. Ainda assim, reafirma suas intenções, mostra os estudos, calcula novamente a chegada, mas não sai novamente do ponto de partida. Porém, vive como se estivesse chegado, e desfruta de uma realidade totalmente utópica, que não existe nem lá, nem cá, que não é nem vestígio, nem bruma.

Sua forma é amorfa. Procura pelo convencimento estético criar a expectativa no outro. Busca pela sedução transgredir o conhecido contexto. Visa roubar do interlocutor a percepção da realidade. Tenta transferir sua responsabilidade. Marca com astúcia a corrosão dos princípios humanos. Cria o hábito do tirano engano ou da sábia mentira. Mata a possibilidade de contato!

Minha rica experiência, a qual marco com gratidão, deu-me a oportunidade de conhecer o que há entre as realidades: sem o conhecimento, a realidade, e o sonho, a promessa. Aquilo considerado como "boderline", ou aquilo que existe entre as bordas... as bordas do ser humano e de seu repertório psíquico e físico. Ademais, além de conhecer aquilo tudo, ou nada, que há entre um e outro, bem e mal, verdade e mentira, realidade e fantasia, aprendi o significado de um novo conhecido sentimento: a perda. Claro que conhecido, porque todos sabemos o significado de uma perda. Todos perdemos, é claro! Entretanto, quando perdemos, temos certa noção da perda ou daquilo que a provocou. Perdemos por algo, real ou não: uma palavra, uma ação, uma negligência, um motivo... Todavia, minha perda real por algo nunca houve. É como se não existisse, como se não houvesse. Embora tenha vivido, não sei o que houve. Como se o que a mim chegasse não existisse, seja pela contradição entre a palavra e a ação, seja pela impossibilidade de continuidade, de regularidade. Minha perda se deu por algo absolutamente verdadeiro, porém não visível. E, aprendi que nem tudo que se vê é real. Nem tudo o que é real se vê. Nesse hiato, que gera tensão e profunda tristeza, por não saber o que há, aprendi que é possível perder o que nunca existiu! Não é possível perder o que nunca existiu, né Drummond?!


"Por muito tempo achei que a ausência é falta.
E lastimava, ignorante, a falta.
Hoje não a lastimo.
Não há falta na ausência.
A ausência é um estar em mim.
E sinto-a, branca, tão pegada, aconchegada nos meus braços,
que rio e danço e invento exclamações alegres,
porque a ausência, essa ausência assimilada,
ninguém a rouba mais de mim."

/. Ausência: Carlos Drummond de Andrade

terça-feira, 7 de outubro de 2014

Necessária Tristeza!

Foi assim que adentrou em minha sala: introspectivo, cabisbaixo, sem conseguir olhar para mim. Em poucos segundos estava chorando, profundamente. Choro sentido! Dor. Tentou aos poucos me olhar, talvez com a menção de me explicar algo. Nunca havia acontecido isso... Até que por fim fitou e sussurou:
- Acho que estou depressivo. Perdi a vontade de tudo...
Novo silêncio. As lágrimas buscando espaço em sua face sentida. Suas mãos iam constantemente ao encontro de um novo lenço de papel, depositado na mesinha ao seu lado. Tentou novamente:
- Algo está acontecendo... por isso resolvi vim à análise hoje.
Fazia questão de tentar explicar-me. Fiquei olhando-o fixamente. Busquei sentir sua respiração para que pudéssemos respirar juntos. E permiti lhe dizer:
- Aproveite o que está vindo. Permita-se...
Novo silêncio. Ao sentir permissão em minhas palavras respirou profundamente, como se sentisse certa consonância comigo. Seu choro havia ficado mais forte, sua dor mais profunda. Algo ainda não me agradava, como se pudesse sentir sua negação daquilo que estava acontecendo. As lágrimas continuaram a correr, como se não pudesse controlá-las.
- Não sei o que fazer. Nunca me sentia assim, disse ele.
Foi quando pede para tentar falar mais claramente, como se não estivesse compreendendo. Seria importante tomar consciência de seu processo, seja qual fosse ele.
- Não sei explicar, arriscou. Não consegui fazer nada no último domingo, nem sair de casa, nem sair com minha família – como era habitual. Fiquei prostrado, ainda estou na verdade. Sinto-me sozinho. Hoje não tive vontade de trabalhar. Acho que estou deprimido.
Como se ainda não estivesse compreendendo balbuciei:
- Não saiu domingo? Por quê?
Nova espera... o choro definitivamente não cessava.
- Houve um problema em casa, coisas de casa velha. Chamei um técnico e não pude sair de lá, explicou-me.
- Ah é, falei... Verdade, casa velha sempre dá problemas. Aliás, tudo que é velho carece ser transformado, ou menos olhado, não acha?, complementei.
Nova pausa. O choro estava mais brando. Olhou-me de maneira mais próxima, como se compreendensse meu questionamento. Mesmo assim, hesitou:
- Como assim?
- Uai!  Não acha que como a sua casa, há outras verdades que devemos também olhar. Por vezes parar, esquecer um pouco nossos hábitos e reciclar?, indaguei.
Começamos estabelecer um diálogo.
- Talvez, mas o que tem isso a ver comigo?, perguntou “inocentemente”.
- Bom, veja o que está lhe acontecendo desde sentou aqui. Não fale mais nada, nem tente explicar ou criar supostos motivos que o fez sentir desta maneira. Também não defina seu momento com hipotéticos diagnósticos. Apenas sinta e me diga o que vem..., finalizei.
Novo silêncio se fez presente. As lágrimas voltaram a correr. Uma angústia era claramente perceptivel. Tentou responder duas ou três vezes antes de conseguir, até que por fim me disse:
- Sinto-me só, nem respostas, sem nada em que possa me apoiar, afirmou veementemente.
- E o que sente que isso pode representar?, perguntei novamente.
- Sei lá... (choro contínuo). Algo diferente pode estar me acontecendo! Não sei bem como definir tudo isso, complementou novamente.
- Então não defina. Diga-me apenas qual é o principal sentimento quando fecha seus olhos. E, se possível, diga-me se com o sentimento vem alguma imagem.
Pausa... Sua cabeça estava baixa. Procurou fechar os olhos, sem tanta resistência. Pareceu querer realmente sentir o que lhe estava acontecendo. Por fim, me disse:
- Tristeza, sinto muita tristeza. Não vejo imagem alguma. Na verdade, penso em minha família e vejo que tenho apenas eles. Tenho quase 50 anos e é a única coisa que tenho.
- Muito bom estar se permitindo sentir essa tristeza. Precisa de muita coragem para senti-la, principalmente nos dias de hoje onde tudo parece uma grande festa. Parabéns!, disse eu.
Ele levemente consentiu, então continuei:
- Disse-me sentir algo novo, que parece uma tristeza, como acabou de afirmar. Disse também que se sente só, como também não se sentiu antes. Quando busca compreender essas duas temáticas vem sua família em sua mente e a idade que tem. Como poderíamos deixar isso mais claro para nós?!
Novo intervalo. Olhou-me rapidamente nos olhos. Baixou a cabeça, como se estivesse realmente interessado em compreender a tristeza que o acometia.
- Não sei, não estou conseguindo estabelecer nenhum tipo de conexão, disse-me.
- Ótimo, se não está conseguindo estabelecer conexão, significa que pode existir senão não falaria a respeito. Mas deixemos isso de lado e pensemos o seguinte: imagine que está indo a um lugar de carro, que não conhece. Imagine também que não há nenhuma tecnologia por perto. Está sozinho. É tarde. Nunca esteve neste bairro, sequer ouviu falar dele. O que faria? Quais recursos que abriria mão neste momento?
- Como assim?, resistiu. Não sei! Sei lá, talvez precisasse parar num postou ou em algum lugar para falar com alguem. Para que pudesse me explicar. Acho que isso, não sei. Por quê?
- Não importa o porque neste momento. O que está me dizendo é que perguntaria para outra pessoa, é isso?
- Sim.
- E por quê?, repliquei.
- Como assim doutor? Porque estou perdido, não sei como chegar ao meu destino, concluiu meio sem paciência.
- Exatamente. Perfeito! Você só poderá chegar onde quer quando assumir para você que não sabe chegar, ou seja, que está perdido. E, se está perdido, é porque é algo novo. Não é?. Mas, definitivamente, só conseguirá chegar onde quer se tiver a humildade de assumir que não sabe, que não pode, que precisará de outro para lhe ajudar, continuei. É assim que está se sentindo?
Estabelecia profunda conexão visual comigo quando falava. Ao terminar, pos-se a refletir, desviando o olhar e baixando novamente a cabeça. Seu choro agora estava contido, ainda mais profundo. Fez uma afirmação com a cabeça e desferiu:
- Acho que sim. Tem razão. Estou triste por estar perdido mesmo, por não saber o que passa comigo. Sempre tive minha família, que me ama é claro, mas acho que é o momento de seguir meu caminho, ou o caminho que desconheço. Cansei de ser o mesmo e me sentir o mesmo!
E, foi assim que saiu da minha sala. Exausto pela “descoberta”. O conhecimento de nossos processos costuma doer, às vezes muito. Sangra por dentro, diz alguns. E, também, não há explicação, como todo processo que é verdadeiro. Acontece, por assim dizer. Mamãe costumava me dizer que ou crescemos pelo amor ou crescemos pela dor. Em geral, escolhemos a dor. Infelizmente. Enfim, a tristeza é algo que chega e sempre sinaliza. Não há porque fugir, não há para onde ir. “Graças” a indústria farmacêutica somos estimulados a tomar a nova droga do momento, com a ilusão que acabará com toda a dor e, por vezes, sofrimento que sentimos. Não, não são iguais, e Drummond sabia disso quando escreveu “viver não doi”. Dizia que o sofrimento é uma escolha, já que suas raízes estão na expectativa de coisas que queríamos que nos tivesse acontecido. E sofremos porque criamos uma fantasia que nos faz sofrer. Já a dor, essa é inevitável. É fruto da experiência, muitas vezes da teimosia, que não deixa se ser uma experiência também. Mas a dor ressoa, doi fundo, como mostrado no texto acima. E, se faz mais que necessária numa sociedade que cultua apenas o prazer de tudo. Lembro-me de uma letra do Titãs que diz:
Não tome comprimido
Não tome anestesia
Não há nenhum remédio
Não vá pra drogaria
Deixe que ela entre
Que ela contamine
Que ela te enlouqueça
Que ela te ensine
Não fuja da dor
Não fuja da dor
Não tome novalgina
Não tome analgésico
Nenhuma medicina
Não ligue para o médico
Deixe que ela chegue
Que ela te determine
Que ela te consuma
Que ela te domine
Não fuja da dor
Não fuja da dor
Querer sentir a dor
Não é uma loucura
Fugir da dor é fugir da própria cura
(Não fujas da dor – Titãs)

Às vezes precisamos desacelerar. Parar. Escutar o silêncio. Isolar-se da grande maioria devoradora. Precisamos iniciar nosso caminho interior, refazer-se. Ouvir o que nosso coração tem para noss dizer. Criar raízes verdadeiras. Encontrar a si mesmo. Esquecer do que foi vivida. Perder-se, para então se achar!

quinta-feira, 7 de novembro de 2013

Tristeza

Você, que diz que, se pudesse, trocaria seu nome por melancolia, você me pergunta sobre as razões da tristeza. Me pergunta mais: sobre as razões por que há pessoas que se emocionam com coisas pequenas - as outras nem ligam e até riem da sua sensibilidade -, o que lhe dá uma tristeza ainda maior, a tristeza da solidão.


Olhe, há tristezas de dois tipos. Primeiro, são as tristezas diurnas, quando o mundo está iluminado pelo sol. Tristezas para as quais há razões. Fico triste porque o meu cãozinho morreu, porque meu filho está doente, porque crianças esfarrapadas e magras me pedem uma moedinha no semáforo, porque o amor se desfez. Para essas tristezas há razões. Quem não sente essas tristezas está doente e precisaria de terapia para aprender a ficar triste. Tristeza é parte da vida. Ela é reação natural da alma diante da perda de algo que se ama. O mundo está luminoso e claro - mas há algo, uma perda, que faz tudo ficar triste.


Segundo, são as tristezas de crepúsculo. O crepúsculo é triste, naturalmente. Não, não há perda nenhuma. Tudo está certo. Não há razões para ficar triste. A despeito disso, no crepúsculo a gente fica. Talvez porque o crepúsculo seja uma metáfora do que é a vida: a beleza efêmera das cores que vão mergulhando no escuro da noite.


A alma é um cenário. Por vezes, ela é como uma manhã brilhante e fresca, inundada de alegria. Por vezes, ela é como um pôr de sol, triste e nostálgico. A vida é assim. Mas, se é manhã brilhante o tempo todo, alguma coisa está errada. Tristeza é preciso. A tristeza torna as pessoas mais ternas. Se é crepúsculo o tempo todo, alguma coisa não está bem. Alegria é preciso. Alegria é a chama que dá vontade de viver.


Eu acho que essa tristeza crepuscular é mais que uma perturbação psicológica. Acho que ela tem a ver com a sensibilidade perante a dimensão trágica da vida. A vida é trágica porque tudo o que a gente ama vai mergulhando no rio do tempo.


"Tudo flui, nada permanece". * A vida é feita de perdas. Fiquei comovido, dias atrás, vendo fotos dos meus filhos quando eles eram meninos. Aquele tempo passou. Aquela alegria mergulhou no rio do tempo. Não volta mais. Há assim, um trágico que não está ligado a eventos trágicos. Está ligado à realidade da própria vida. Tudo o que amamos, tudo que é belo, passa.


Mas é precisamente desse sentimento que surge uma coisa maravilhosa, motivo de riqueza espiritual: a arte. Os artistas são feiticeiros que tentam paralisar o crepúsculo. Eternizar o efêmero. Todas as vezes que ouço aquela música ou leio aquele poema, o passado ressuscita. A beleza da arte nasce da tristeza. Se não houvesse tristeza, não haveria arte. Diz o Jobim: "Assim como o poeta só é grande se sofrer...". Certo. Sem tristeza não haveria Cecília, Adélia, Pessoa, Chico, Beethoven, Chopin. A obra de arte ou é para exprimir ou para curar o sofrimento.


Mas há limite. É preciso que a tristeza seja temperada com alegria. Tristeza, só, é muito perigoso. As pessoas começam a desejar morrer. Essa é a razão por que os deprimidos querem dormir o tempo todo. O dormir é uma morte reversível.


Quando a gente está com dor de cabeça, toma aspirina sem vergonha alguma. Quando a gente está com dor de alma, tristeza, algum remédio é preciso - para não querer morrer, para voltar a ter alegria.


Uma ajuda para a tristeza é conversar. Para isso é preciso ter alguém que escute, que entenda a tristeza. Muitas pessoas procuram terapia para isso: não porque sejam doentes mentais, mas porque precisam compartilhar sua tristeza com alguém que conheça a luz crepuscular.


/. Rubem Alves

sexta-feira, 11 de outubro de 2013

COISAS QUE NÃO PRECISO PARA SER FELIZ!

Com certeza, já haviam tomado café da manhã em casa, mas como a companhia aérea oferecia um outro café, todos comiam vorazmente. Aquilo me fez refletir: 'Qual dos dois modelos produz felicidade?' Encontrei Daniela, 10 anos, no elevador, às nove da manhã, e perguntei: 'Não foi à aula?' Ela respondeu: 'Não, tenho aula à tarde'.

Comemorei: 'Que bom, então de manhã você pode brincar, dormir até mais tarde'. 'Não', retrucou ela, 'tenho tanta coisa de manhã...' 'Que tanta coisa?', perguntei. 'Aulas de inglês, de balé, de pintura, piscina', e começou a elencar seu programa degarota robotizada. Fiquei pensando: 'Que pena, a Daniela não disse: 'Tenho aula de meditação! Estamos construindo super-homens e super mulheres, totalmente equipados, mas emocionalmente infantilizados.


Uma progressista cidade do interior de São Paulo tinha, em 1960, seis livrarias e uma academia de ginástica; hoje, tem sessenta academias de ginástica e três livrarias! Não tenho nada contra malhar o corpo, mas me preocupo com a desproporção em relação à malhação do espírito. Acho ótimo, vamos todos morrer esbeltos: 'Como estava o defunto?'. 'Olha, uma maravilha, não tinha uma celulite!' Mas como fica a questão da subjetividade? Da espiritualidade? Da ociosidade amorosa? Hoje, a palavra é virtualidade. Tudo é virtual. Trancado em seu quarto, em Brasília, um homem pode ter uma amiga íntima em Tóquio, sem nenhuma preocupação de conhecer o seu vizinho de prédio ou de quadra! Tudo é virtual. Somos místicos virtuais, religiosos virtuais, cidadãos virtuais.


E somos também eticamente virtuais... A palavra hoje é 'entretenimento'; domingo, então, é o dia nacional da imbecilização coletiva. Imbecil o apresentador, imbecil quem vai lá e se apresenta no palco, imbecil quem perde a tarde diante da tela. Como a publicidade não consegue vender felicidade, passa a ilusão de que felicidade é o resultado da soma de prazeres: 'Se tomar este refrigerante, vestir este tênis, usar esta camisa, comprar este carro,você chega lá!' O problema é que, em geral, não se chega! Quem cede desenvolve de tal maneira o desejo, que acaba precisando de um analista. Ou de remédios. Quem resiste, aumenta a neurose.

O grande desafio é começar a ver o quanto é bom ser livre de todo esse condicionamento globalizante, neoliberal, consumista. Assim, pode-se viver melhor. Aliás, para uma boa saúde mental três requisitos são indispensáveis: amizades, autoestima, ausência de estresse.

Há uma lógica religiosa no consumismo pós-moderno.

Na Idade Média, as cidades adquiriam status construindo uma catedral; hoje, no Brasil, constrói-se um shopping-center. É curioso: a maioria dos shoppings-centers tem linhas arquitetônicas de catedrais estilizadas; neles não se pode ir de qualquer maneira, é preciso vestir roupa de missa de domingo. E ali dentro sente-se uma sensação paradisíaca: não há mendigos, crianças de rua, sujeira pelas calçadas...

Entra-se naqueles claustros ao som do gregoriano pós-moderno, aquela musiquinha de esperar dentista. Observam-se os vários nichos, todas aquelas capelas com os veneráveis objetos de consumo, acolitados por belas sacerdotisas. Quem pode comprar à vista, sente-se no reino dos céus. Deve-se passar cheque pré-datado, pagar a crédito, entrar no cheque especial, sente-se no purgatório. Mas se não pode comprar, certamente vai se sentir no inferno...

Felizmente, terminam todos na eucaristia pós-moderna, irmanados na mesma mesa, com o mesmo suco e o mesmo hambúrguer do Mc Donald... Costumo advertir os balconistas que me cercam à porta das lojas: 'Estou apenas fazendo um passeio socrático.' Diante de seus olhares espantados, explico: 'Sócrates, filósofo grego, também gostava de descansar a cabeça percorrendo o centro comercial de Atenas.

Quando vendedores como vocês o assediavam, ele respondia:... "Estou apenas observando quanta coisa existe de que não preciso para ser Feliz"!!

Frei Beto

quinta-feira, 10 de outubro de 2013

ERÓTICA É A ALMA!

Adélia Prado certa vez escreveu: "Erótica é a alma". Além de poética, a frase é redentora, pois alivia o peso da sensualidade a qualquer custo, a busca desenfreada pela juventude perdida, a corrida pelos últimos lançamentos da indústria cosmética.

E nos autoriza a cuidar mais da alma, a viajar pro interior, a descobrir o que nos completa. Pois se os olhos são as janelas da alma, de que adianta levantar pálpebras se descortinam um olhar de súplica?

Erótica é a alma que se diverte, que se perdoa, que ri de si mesma e faz as pazes com sua história. Que usa a espontaneidade pra ser sensual, que se despe de preconceitos, intolerâncias, desafetos. Erótica é a alma que aceita a passagem do tempo com leveza e conserva o bom humor apesar dos vincos em torno dos olhos e o código de barras acima dos lábios; erótica é a alma que não esconde seus defeitos, que não se culpa pela passagem do tempo. Erótica é a alma que aceita suas dores, atravessa seu deserto e ama sem pudores.

Porque não adianta sex shop sem sex appeal; bisturi por fora sem plástica por dentro; lifting, botox, laser e preenchimento facial sem cuidado com aquilo que pensa, processa e fala; retoque de raiz sem reforma de pensamento; striptease sem ousadia ou espontaneidade.

Querendo ou não, iremos todos envelhecer_faz parte da vida. As pernas irão pesar, a coluna doer, o colesterol aumentar. A imagem no espelho irá se alterar gradativamente e perderemos estatura, lábios e cabelos. A boa notícia é que a alma pode permanecer com o humor dos dez, o viço dos vinte e o erotismo dos trinta anos_ se você permitir.

O segredo não é reformar por fora. É, acima de tudo, renovar a mobília interior_ tirar o pó, dar brilho, trocar o estofado, abrir as janelas, arejar o ambiente. Porque o tempo, invariavelmente, irá corroer o exterior. E quando ocorrer, o alicerce precisa estar forte pra suportar. Feito a casa dos três porquinhos, lembra?

Não tem problema cuidar do corpo. É primordial ter saúde e faz bem dar um agrado à auto estima. O perigo é ficar refém do espelho, obcecado pelo bisturi, viciado em reduzir, esticar, acrescentar, modelar_ até plástica íntima andam fazendo!
Aprenda: Bisturi algum vai dar conta do buraco de uma alma negligenciada anos a fio.

Vivemos a era das emergências. De repente tudo tem conserto, tudo se resolve num piscar de olhos, há varinha de condão e tarja preta pra sanar dores do corpo, alma e coração. Como canta Nando Reis, "O mundo está ao contrário e ninguém reparou..." Desaprendemos a valorizar aquilo que é importante, o que é eterno, o que tem vocação de eternidade.
E de tanto lustrar a carapaça, vivemos a "Síndrome da Maça do Amor": Brilhantes por fora e podres por dentro.
O tempo tornou-se escasso, acreditamos que "perdemos tempo" quando lemos um livro inteiro, quando passamos horas com nossos filhos, quando oramos ou viajamos com a família. E nos iludimos achando que poderemos "segurar o tempo" cuidando da flacidez, esticando a pele, preenchendo espaços.

Cuide do interior. Erotize a alma. Enriqueça seu tempo com uma nova receita culinária, boas conversas, um curso de canto ou dança. Leia, medite, cultive um jardim. Sinta o sol no rosto e por um instante não se preocupe com o envelhecimento cutâneo. Alongue-se, experimente o prazer que seu corpo ainda pode lhe proporcionar. Não se ressinta das novas dores, da pouca agilidade, dos novos vincos. Descubra enfim que a alegria pode rejuvenescer mais que o botox.
E não se esqueça: em vez de se concentrar no lustre da maçã, trate de aproveitar o sabor que ela ainda é capaz de proporcionar...

FABÍOLA SIMÕES

sexta-feira, 16 de agosto de 2013

Aniversário!

Minha mãe me ensinou que não é polido perguntar às pessoas sobre a sua idade. Eu lhe perguntei por quê, mas ela não soube me explicar as razões. Nunca consegui entender esta regra da etiqueta pois não podia ver mal algum em querer saber sobre os anos de vida que uma pessoa acumulou. Foi só há umas poucas semanas que compreendi as boas razões que se escondem atrás deste tabu. E que qualquer que seja a resposta, ela é sempre mentirosa. Mesmo quando a conta está certa.

Pois é assim que se obtém a resposta: somando os anos que já se passaram do ano do meu nascimento até o ano em que estou vivendo. Se digo que tenho 58 anos, este número é obtido pela soma, um a um, dos anos que vão do dia do meu nascimento, em 1933, até hoje. A conta está certa, mas a resposta está errada. Pois 58 anos são, precisamente, os anos que eu não tenho. 58 são os anos que já se passaram, anos mergulhados no passado, anos com que não posso mais contar, anos que já se queimaram e que não mais se acenderão, como paus de fósforos riscados. Os anos de uma vida nunca se somam;
eles sempre se subtraem.

Assim, a pergunta correta a ser feita, especialmente num aniversário, não é “quantos anos você está fazendo?”, mas antes, “quantos anos você está desfazendo?” E as respostas, para serem verdadeiras, terão de assumir a forma de “eu não tenho 25 anos”, “eu não tenho 37 anos”, “eu não tenho 72 anos”...

A etiqueta proíbe que se faça a pergunta terrível porque ela nos obriga a confessar o quanto de morte se acumulou em nosso corpo. Pois os anos somados são, na verdade, os anos de vida que foram subtraídos, o número dos anos que já morreram. A proibição tem sua razão: por detrás da pergunta sobre os anos de vida, o que se está perguntando, mesmo, é sobre os anos de morte.

As liturgias de aniversário, de forma sub-reptícia, anunciam a verdade que a regra de etiqueta deseja esconder. Tanto assim que elegeram, como forma de celebrar o evento, o sopro das velas. Lá estão as velas, sobre o bolo, chamas acesas, no número exato dos anos vividos. Vem o aniversariante sorridente e inocente, sem saber direito o que está fazendo, e com um único sopro apaga as velas. Sobre o bolo ficam os pavios negros. De onde antes havia a chama sobe agora para o alto o que restou da luz: um risco de fumaça negra.

Todos riem, batem palmas e cantam.

Confesso que fico pasmo, sem perceber o que está acontecendo. Pois não há como negar: o apagar das velas é um símbolo da morte. Aqueles são os anos que já morreram. Uma veIa que se apaga é uma vida que se vai.

Penso que, se soubéssemos o que está acontecendo, todos haveríamos de chorar e lamentar. Ah! Vida, vela, coisa frágil que se apaga com um simples sopro... Aí eu pensei se não deveríamos inverter o ritual. Na sala escura e silenciosa um fósforo é riscado e uma vela é acesa - vela que nenhum sopro vai apagar, e que vai ficar brilhando por todo o tempo que durar a festa. Com o acender da vela explode a alegria, não pelos anos que foram desfeitos, mas por aqueles que estão à espera para ser vividos. Ao invés de soprar a vela, acender a vela... E imaginei que cada pessoa deveria ter uma vela - a sua vela, vela que não se compra em pacotes, pois cada vida é única, diferente de todas as demais. A vela teria que ser feita, bem devagarinho, gota a gota, seguindo o ritmo do corpo que vai se formando dentro do corpo da mãe, célula a célula. Todos os que a amassem poderiam ajudar. Cada um que quisesse poderia derramar a suacera derretida no corpo da vela, que iria crescendo, do lado de fora, enquanto a criancinha estava crescendo do lado de dentro.

Esta vela seria mais que uma vela. Seria uma oração.  Teria uma estória. Teria um nome. Cada vela é um desejo de luz e de calor. Cada  vela é um reconhecimento de que, para dar luz e calor, é necessário não ter pena do próprio corpo. A vela vive morrendo. Quem faz uma vela medita sobre a beleza e a tristeza da vida. E, com isto, aquele que a faz fica mais sábio. E que coisa melhor se pode oferecer a uma criança por nascer que a sabedoria daqueles que já nasceram?

A vela seria um testemunho dos desejos dos que já vivem, oferecidos àquele que irá viver. Os desejos iriam dizer como a vela iria ser. Há velas esguias que desejam subir: sonhos alados. Outras, redondas, são frutos encantados: sonhos de prazer. Dádivas luminosas aos olhos, são também dádivas perfumadas, delícias para o nariz. Que perfume deverá desprender ao se queimar? Canela? Jasmim? Cravo? Pêssego? As velas acariciam o corpo mesmo quando os olhos se fecham. E as suas cores dirão das cores dos desejos daqueles que as fizeram. Pois a alma é colorida...

E quando a mãe der à luz o seu filho que chorará o seu primeiro choro de vida, a sua vela será acesa, e dará também a luz, como a mãe, e derramará a sua primeira lágrima, na cera derretida que escorre pelo seu corpo.

A cada aniversário que se celebrar a vela sairá do seu lugar, cada vez menor, para ser de novo acesa, repetindo a eterna lição de que, se é verdade que a vida se apaga facilmente com o sopro de um vento, é verdade também que ela se acende de novo ao ser tocada pela chama...

(Rubem Alves - Correio Popular, 1991 ou 1992)

sexta-feira, 22 de junho de 2012

O Segredo do Casamento


Meus amigos separados não cansam de me perguntar como eu consegui ficar casado trinta anos com a mesma mulher. As mulheres, sempre mais maldosas que os homens, não perguntam a minha esposa como ela consegue ficar casada com o mesmo homem, mas como ela consegue ficar casada comigo.

Os jovens é que fazem as perguntas certas, ou seja, querem conhecer o segredo para manter um casamento por tanto tempo.

Ninguém ensina isso nas escolas, pelo contrário. Não sou um especialista do ramo, como todos sabem, mas, dito isso, minha resposta é mais ou menos a que segue.

Hoje em dia o divórcio é inevitável, não dá para escapar. Ninguém aguenta conviver com a mesma pessoa por uma eternidade. Eu, na realidade, já estou em meu terceiro casamento - a única diferença é que me casei três vezes com a mesma mulher. Minha esposa, se não me engano, está em seu quinto, porque ela pensou em pegar as malas mais vezes do que eu.

O segredo do casamento não é a harmonia eterna. Depois dos inevitáveis arranca-rabos, a solução é ponderar, se acalmar e partir de novo com a mesma mulher. O segredo no fundo é renovar o casamento, e não procurar um casamento novo. Isso exige alguns cuidados e preocupações que são esquecidos no dia-a-dia do casal. De tempos em tempos, é preciso renovar a relação. De tempos em tempos, é preciso voltar a namorar, voltar a cortejar, voltar a se vender, seduzir e ser seduzido.

Há quanto tempo vocês não saem para dançar? Há quanto tempo você não tenta conquistá-la ou conquistá-lo como se seu par fosse um pretendente em potencial? Há quanto tempo não fazem uma lua de mel, sem os filhos eternamente brigando para ter a sua irrestrita atenção?

Sem falar nos inúmeros quilos que se acrescentaram a você, depois do casamento. Mulher e marido que se separam perdem 10 quilos num único mês, por que vocês não podem conseguir o mesmo? Faça de conta que você está de caso novo. Se fosse um casamento novo, você certamente passaria a frequentar lugares desconhecidos, mudaria de casa ou apartamento, trocaria seu guarda-roupa, os discos, o corte de cabelo e a maquiagem. Mas tudo isso pode ser feito sem que você se separe de seu cônjuge.

Vamos ser honestos: ninguém aguenta a mesma mulher ou marido por trinta anos com a mesma roupa, o mesmo batom, com os mesmos amigos, com as mesmas piadas. Muitas vezes não é sua esposa que está ficando chata e mofada, são os amigos dela (e talvez os seus), são seus próprios móveis com a mesma desbotada decoração. Se você se divorciasse, certamente trocaria tudo, que é justamente um dos prazeres da separação. Quem se separa se encanta com a nova vida, a nova casa, um novo bairro, um novo círculo de amigos.

Não é preciso um divórcio litigioso para ter tudo isso. Basta mudar de lugares e interesses e não se deixar acomodar. Isso obviamente custa caro e muitas uniões se esfacelam porque o casal se recusa a pagar esses pequenos custos necessários para renovar um casamento. Mas, se você se separar, sua nova esposa vai querer novos filhos, novos móveis, novas roupas, e você ainda terá a pensão dos filhos do casamento anterior.

Não existe essa tal "estabilidade do casamento", nem ela deveria ser almejada. O mundo muda, e você também, seu marido, sua esposa, seu bairro e seus amigos. A melhor estratégia para salvar um casamento não é manter uma "relação estável", mas saber mudar junto. Todo cônjuge precisa evoluir, estudar, aprimorar-se, interessar-se por coisas que jamais teria pensando fazer no início do casamento. Você faz isso constantemente no trabalho, por que não fazer na própria família? É o que seus filhos fazem desde que vieram ao mundo.

Portanto, descubra o novo homem ou a nova mulher que vive ao seu lado, em vez de sair por aí tentando descobrir um novo e interessante par. Tenho certeza de que seus filhos os respeitarão pela decisão de se manterem juntos e aprenderão a importante lição de como crescer e evoluir unidos apesar das desavenças. Brigas e arranca-rabos sempre ocorrerão: por isso, de vez em quando é necessário casar-se de novo, mas tente fazê-lo sempre com o mesmo par.

Stephen Kanitz é administrador por Harvard


quinta-feira, 14 de junho de 2012

Rebelião não é luta, é pura compreensão

Pergunta: Osho, freqüentemente eu ouço você falar sobre rebelião. Os padres e as freiras e os pais que definiram minha educação, agora estão velhos. A maioria já morreu. Parece que não vale a pena rebelar-me contra aquelas pessoas velhas e desamparadas. Agora, eu mesmo sou o padre e as doutrinas. Eu sinto que me rebelar contra qualquer coisa do lado de fora de mim é um desperdício de tempo e esse não é exatamente o ponto. Isso torna a situação muito mais frustrante e embaraçosa. Parece que algo dentro de mim tem que se rebelar contra algo dentro de mim. Eu aceito que não é o meu ser essencial - a face original - que tem que se rebelar. É o self treinado - o subterfúgio. Mas, para me rebelar, eu tenho que usar esse "self" pois ele é o único que eu conheço. Como pode o subterfúgio se rebelar contra o subterfúgio?
Osho: A rebelião da qual eu tenho falado não tem que ser feita contra ninguém. Ela não é na verdade uma rebelião, mas somente uma compreensão. Não, você não tem que lutar contra os padres, as freiras e os pais externos. E você não tem também que lutar contra os padres, freiras e pais internos. Porque, internos ou externos, eles estão separados de você. O externo está separado, e o interno também está separado. O interno é apenas o reflexo do externo.
Você está perfeitamente certo ao dizer: "parece que não vale a pena rebelar-me contra aquelas pessoas velhas e desamparadas". Eu não estou dizendo a você para se rebelar contra aquelas pessoas velhas e desamparadas. E eu também não estou dizendo a você para se rebelar contra tudo o que eles incutiram em você. Se você se rebelar contra sua própria mente, isso será uma reação, não uma rebelião. Note a diferença. A reação surge a partir da raiva; a reação é violenta. Numa reação você se torna cego de raiva. Numa reação você passa para o outro extremo.
Por exemplo, se os seus pais ensinaram você a ficar limpo e tomar um banho todo dia, e mais isso e mais aquilo, e se foi ensinado a você desde pequenino que a limpeza está próxima de Deus; o que você fará, se um dia você começar a se rebelar? Você vai parar de tomar banho. Você vai começar a viver imundo.
Isso é o que os Hippies seguiram fazendo ao redor do mundo. Eles pensavam que isso era rebelião. Eles passaram para o outro extremo. A eles foi ensinado que a limpeza era divina; agora eles estão pensando que a imundície é divina, que a sujeira é divina. De um extremo, eles passaram para o outro. Isso não é rebelião. Isso é raiva, isso é ira, isso é desforra.
Enquanto você estiver reagindo aos seus pais e às suas idéias de limpeza, você ainda está apegado àquelas mesmas idéias. Elas ainda estão dentro de você, elas ainda têm um poder sobre você, elas ainda são dominante, elas ainda são decisivas. Elas ainda decidem a sua vida, embora você tenha se tornado o oposto delas; mas elas decidem. Você não pode tomar um banho tranqüilo, pois você se lembrará de seus pais que o forçavam a tomar banho todos os dias. Agora você não quer tomar mais banho, de jeito algum.
Quem está dominando você? Ainda os seus pais. O que eles fizeram com você, você ainda não foi capaz de desfazer. Isso é uma reação, isso não é rebelião.
Então o que é rebelião? Rebelião é pura compreensão. Você simplesmente compreende qual é o caso. Então você não fica mais obcecado por limpeza, e isso é tudo. Isso não quer dizer que você vá se tornar sujo. A limpeza tem sua própria beleza. Mas a pessoa não deve ficar obcecada por ela, porque obsessão é doença.
Por exemplo, uma pessoa lavando suas mãos continuamente por todo o dia - isso é neurose. Lavar as mãos não é uma coisa ruim, mas lavar suas mãos por todo o dia é loucura. Mas se, de lavar as mãos por todo o dia, você passar a não lavá-las; se você parar de lavá-las para sempre, então de novo você terá caído na armadilha, num outro tipo de loucura, o tipo oposto.
Um homem de compreensão lava suas mãos quando é necessário, ele não está obcecado com isso. Ele é simplesmente espontâneo e natural a respeito disso. Ele vive inteligentemente e isso é tudo.
Mas, se você não prestar muita atenção nos pequenos detalhes, não verá muita diferença entre obsessão e inteligência. Por exemplo, se você cruzar com uma cobra no caminho e você der um salto, naturalmente você deu um salto devido ao medo. Mas esse medo é inteligência. Se você não for inteligente, for estúpido, você não vai pular para fora do caminho e, desnecessariamente, estará colocando a sua vida em perigo. A pessoa inteligente irá pular imediatamente - a cobra está ali. Isso é devido ao medo, mas esse medo é inteligente, positivo, está a serviço da vida.
Mas esse medo pode se tornar obsessivo. Por exemplo, você pode não querer sentar dentro de uma casa. Quem sabe? Ela pode desmoronar. E sabe-se que casas se desmoronam, isso é verdade. Algumas vezes, elas têm desmoronado; você não está absolutamente errado. Você pode argumentar: "se outras casas desmoronaram, por que não esta?" Agora você está com medo de viver sob qualquer teto - ele pode desabar. Isso é uma obsessão. Isso agora se tornou não-inteligente.
É bom estar alerta de que você está comendo um alimento limpo. Mas eu conheço um homem, um grande poeta... Certa vez ele viajava comigo. Sua esposa me contou, "Agora você saberá o quanto é difícil viver com esse homem." Eu perguntei: "Qual é o problema?". Ela disse: "Você vai saber por si próprio". Ele não bebia nenhum chá, nem água, em nenhum lugar. Era muito difícil, porque ele dizia, "quem sabe se não existem germes no chá ou na água?" Ele não comia em nenhum hotel. Isso se tornou um tal problema... E nós tínhamos que viajar 36 horas de trem e ele estava morrendo de fome e com sede e ele não bebia água.
Eu tentei de toda maneira persuadi-lo. Ele dizia, "Não. Quem sabe? E se houver germes? É melhor," dizia ele, "passar fome por 36 horas e não comer. Eu não vou morrer, não se preocupe". Mas eu podia ver que o homem estava torturando a si mesmo. Era um verão muito quente e ele estava com sede. E eu tentava em toda estação - eu trazia soda, trazia coca-cola, eu trazia tudo que podia. Mas ele dizia, "Esqueça isso - eu não posso tomar nada a não ser que eu esteja absolutamente seguro. Qual é a segurança? Qual é a garantia?"
E ele não estava absolutamente errado, isso é verdade. Você conhece a Índia, e você conhece as estações indianas e os hotéis indianos. Você sabe. Ele está certo, mas agora ele está levando essa lógica longe demais.
Então eu disse a ele, "Pare de respirar também!" Ele disse: "Por que?" Eu disse: "Quem sabe, qual é a garantia? Pare de respirar! Ou beba esta água ou pare de respirar!" Então ele olhou para mim assustado, porque eu estava realmente raivoso. "Por que você segue respirando? Quem sabe, podem existir germes, existem germes em toda parte."
Ele tomou uma xícara de chá, mas a maneira como ele tomou...! Sua face... Eu não consigo esquecer. Já se passaram dez anos, mas eu não consigo esquecer a sua face - era como se eu estivesse matando aquele homem! Eu era um assassino! E ele estava obrigando-me a isso.
Na estação seguinte, ele desceu e disse, "Eu não posso viajar com você; eu vou voltar para casa." Eu disse, "Qual é o problema?" Ele disse, "Você estava com tanta raiva, e parecia que você ia começar a me bater ou alguma coisa assim. E você disse: Não respire mais. Como eu posso parar de respirar?" Eu disse, "Eu só estava dando a você um argumento, que se você pode respirar, por que não beber a água? É a mesma água indiana e o mesmo ar indiano. Não há com que se preocupar."
Ele se recusou a viajar comigo. Eu tive que viajar sozinho. Ele retornou e desde então eu nunca mais o vi.
A pessoa pode se tornar obsessiva a respeito de qualquer coisa. Qualquer coisa que pode ser inteligente dentro de certos limites, pode se tornar uma neurose se você ampliar esses limites. Reagir é passar para o outro extremo. Rebelião é uma compreensão muito profunda, compreensão profunda de um certo fenômeno. A rebelião sempre mantém você no meio, ela dá a você um equilíbrio.
Você não tem que brigar com ninguém, as freiras e os padres e os pais, externos e internos. Você não tem que brigar com ninguém, porque numa briga você nunca sabe onde vai parar. Numa briga a pessoa perde a consciência; numa briga a pessoa passa logo para os extremos. Você pode observar isso.
Por exemplo, você está sentado com seus amigos e, no meio da conversa, você diz, "Aquele filme que eu vi ontem não vale a pena ser visto." Isso pode ter sido um comentário à toa, mas então alguém diz, "Você está errado. Eu também vi o filme. Ele é um dos mais belos filmes que já foram feitos". Você foi provocado, desafiado; e agora você se enche de argumentos. Você diz, "ele não tem valor, é a coisa mais sem valor que existe!" E você começa a criticar. E se o outro também insistir, você vai se tornar mais e mais raivoso e vai começar a dizer coisas que você nem mesmo tinha pensado a respeito. E mais tarde, se você olhar para trás e ver todo o fenômeno que aconteceu, você ficará surpreso pois quando você mencionou que o filme não valia a pena ser visto era uma afirmação muito moderada, mas com o passar do tempo você adotou argumentos e você já estava numa posição extremada. Você usou tudo que era possível, todas as palavras mais desagradáveis que você conhecia. Você condenou de toda maneira, você usou toda a sua habilidade para condenar. E você não estava com disposição para fazer isso no começo. Se ninguém tivesse contestado você, você poderia ter esquecido aquele assunto, você não iria nunca fazer aquelas afirmações pesadas.
Isso acontece - quando você começa a brigar, a tendência é você passar para os extremos.
Eu não estou ensinando você a brigar com seus condicionamentos. Compreenda-os. Torne-se mais inteligente a respeito deles. Simplesmente veja como eles dominam você, como eles influenciam o seu comportamento, como eles modelam a sua personalidade, como eles seguem atingindo você pela porta dos fundos. Simplesmente observe! Seja meditativo. E um dia, quando você tiver visto o funcionamento dos seus condicionamentos, de repente um equilíbrio será alcançado. Em sua real compreensão você estará livre.
Compreensão é liberdade, e essa liberdade eu chamo rebelião.
O verdadeiro rebelde não é um lutador; ele é um homem de compreensão. Ele simplesmente cresce em inteligência, não em raiva, não em ira. Você não consegue transformar a si mesmo tendo raiva de seu passado. Dessa maneira, o passado irá continuar dominando você, o passado continuará sendo o centro de seu ser, o passado permanecerá o seu foco. Você permanecerá focado, preso ao passado. Você poderá passar para o outro extremo, mas você ainda continuará preso ao passado.
Fique alerta quanto a isso! Esse não é o caminho de um meditador, esse não é o caminho de um sannyasin. Sannyas é rebelião - rebelião através da compreensão. Simplesmente compreenda.
Você passa ao lado de uma igreja e um profundo desejo surge em você de ir ao interior e orar. Ou você passa ao lado de um templo e inconscientemente você se curva diante de uma divindade do templo. Simplesmente observe. Por que você está fazendo essas coisas? Eu não estou dizendo para brigar. Eu estou dizendo para observar. Por que você se curva diante do templo? Porque foi ensinado a você que esse é o templo certo, que a divindade desse templo é a imagem verdadeira de Deus. Você sabe? Ou isso foi simplesmente dito a você e você continua seguindo isso? Observe!
Vendo isso, que você está simplesmente repetindo um programa que foi dado a você, que você está simplesmente repetindo um mesmo disco em sua cabeça, que você está sendo um autômato, um robô, você irá parar de se curvar. Não que você tenha que fazer qualquer esforço, você simplesmente irá se esquecer de tudo a respeito disso.
Isso irá desaparecer, isso abandonará você sem deixar qualquer traço. Quando você reage, o traço permanece lá. Mas, na rebelião não fica nenhum traço; é liberdade completa.
Você tem simplesmente que ser um observador. E o observar é a sua face original; aquele que observa é a sua consciência verdadeira. Aquilo que é observado é o condicionamento. Aquele que observa é a fonte divina de seu ser.
OSHO - The Secret - discurso n. 14 - pergunta n. 5
(Tradução: Sw. Bodhi Champak)