“Papai, está acontecendo alguma coisa ?”
Com esse questionamento adentrei a sala, meio que sem saber o que responder. Uma inquietação diferente de outras vezes me absorveu. Essa mesma sensação durou alguns poucos instantes, até que uma vontade interna, e já conhecida, me dizia: escreve!!!
Ainda tentei refletir por algum tempo sem muito sucesso, e a mesma sensação tomou conta de meu ser. Era isso mesmo que deveria fazer. Antes porém, resolvi me ocupar com as últimas tarefas diárias e separar as correspondências que havia recebido.
Abri a embalagem da revista que habitualmente costumo assinar e, não por acaso, a matéria mobilizou meus olhos e, principalmente, minha alma. Definitivamente precisava escrever!!!
Algumas cenas, já vividas, tornaram-se presentes ao ler a matéria, bastante interessante, porém também muito conhecida por mim: rupturas, adeus, separação.
Tenho constantemente recebido pessoas em meu consultório que clamam por uma explicação racional das rupturas que passam (ou que deveriam passar). As mais corajosas escutam ao chamado da alma e aderem a um novo script, ainda não muito definido. Porém, a maioria delas continuam a buscar uma saída “plausível”, dentro de uma referência conhecida e insistente. Precisam, e como precisam, de uma boa justificativa para romper com estéreis relações, sejam elas profissionais, afetivas, sociais, pessoais.
Nos últimos dois anos tenho aprendido e compreendido muito acerca de separações. Não por acaso, venho tentando, em minha prática pessoal e profissional, corresponder ao chamado, ao chamado de pessoas inquietas em suas relações e em seus processos pessoais anímicos.
E essa mesma inquietação que me chama ao alcance de outros, faz com que compreenda meu próprio chamado. Também estou aqui, na vida, perguntando e respondendo, movendo-me. Também estou repousando minhas idéias e movimentando minha alma, tal qual em um processo alquímico.
O aprendizado e crescimento tem sido recorrente em meu percurso nos últimos meses. Alguns frutos, que começo a colher, são conseqüências também de uma separação, não menos dolorosa que qualquer outra. Estive casado por quase oito anos, juntos por quase treze e, além da própria união física, outros componentes, principalmente psíquicos, estavam casados comigo. Ainda estou no caminho, em fase de acabamento - que espero que não termine -, buscando compreender e transformar meu caminho. Ademais, escrever e contatar minhas palavras me colocam diante de uma verdadeira catarse, já que outras relações chegaram até mim, algumas já rompidas, outras ainda não. Porém, posso afirmar que a separação coerente, madura, aquela que nos coloca não apenas diante da dificuldade, mas também diante do novo caminho, exige reflexão, paciência, diposicão e muita coragem. Fechar a porta repentinamente não é o caso. Compreender nosso papel existencial e o que estamos fazendo aqui e agora, exige uma demanda que vai além do ego. Resignificar o caminho permite abrir outras portas, penetrar por outros lugares, autorizar outras experiências.
Sofrendo com a nova decepção?
Pratique Ecdise!!!
Como assim???
Ecdise é o esqueleto externo dos artrópodes que precisa ser quebrado periodicamente para que deixe a casca velha e comece a formar outra, mais nova e folgada, para a continuidade de seu desenvolvimento. E romper com a estrutura conhecida e, até então, negada dói. E muito!!! Porém, o sofrimento, e não a dor, está associada as expectativas previamente idealizadas, geralmente associadas a pessoas e/ou situações. A tendência normal, e não natural, é tentar manter, possuir algo, segurar, reter, conservar para que se mantenha eternamente, tal como no início. E esse paradigma pode valer para um parceiro, um emprego, uma rotina, uma situação... E a impossibilidade de manter (em conserva) traz angústia, pois quanto mais tentamos manter aquela situação do jeito que queremos, mais sofremos e nos apegamos. Quando buscamos nos desapegar, fechamos uma porta, mas naturalmente abrem-se outras, que podemos adentrar, com mais maturidade, verdade e criatividade.
Interessante?
Acredito que sim!!!
Lembro-me que durante muitas sessões comentava acerca da impermanência com meus clientes. Muitos deles ficavam estáticos diante dessa realidade. Outros, inquietavam-se ainda mais, tentando, nem que por um instante, atingir com o pensamento tal sabedoria e tranqüilidade (como se fosse possível!!!). Suas queixas, nossas queixas, referem-se, quase que integralmente, aos relacionamentos, principalmente aos relacionamentos afetivos, independente da correlata.
Lendo a matéria a qual me refiro acima, esse mesmo exemplo é usado pontualmente, indicando uma direção a seguir quando a questão são as rupturas, as separações. A impermanência, ou a capacidade em soltar e desapegar, são princípios básicos quando o assunto é relacionamento. Recordo de meu analista me dizendo: “Num primeiro momento relacional, ou numa primeira relação ou casamento, a tendência natural é que se busque no(a) parceiro(a) aquilo que tivemos (ou queríamos ter) em nossas relações parentais... da mesma maneira, a tendência natural é que num segundo momento ou casamento as projeções se tornem menores e busquemos por nós mesmos aquilo que queremos, sem precisar impor, de alguma maneira, ao nosso par...”Isso mesmo!!! Ficar esperando que o parceiro compreenda o chamado é uma grande incógnita. Quantos de nós não temos, ou tivemos, parceiros que se afastam, fisicamente ou não, repentinamente por não se sentirem realizados diante de suas supostas demandas internas, diante de expectativas e de grande carência. Ou de outros que permanecem juntos fisicamente, mas o cotidiano reproduz grande impacto e buscam na periferia outras relações para ficarem mais anestesiados. Conseqüências de uma realidade considerada moderna, aparada em pré-conceitos estéticos que visam à manutenção da sobre-vida, o poder e a perpetuação de desordens afetivas. Realmente parece ser muito mais fácil distanciar-se do que buscar compreensão justa do chamado, da alma. Parafraseando Antônio Machado: “O vento, num dia radioso, certa vez me chamou...” E o chamado é algo sutil, quase que imperceptível, pois a natureza anímica é algo acolhedor e tranqüilo.
Quem ainda não conhece pessoas que perderam repentinamente tudo aquilo que, supostamente, tinham? Ou que adoecem constantemente, criando sintomas, e naturalmente símbolos, pois a realidade anímica não é escutada? Ou ainda aqueles que são tomados por conflitos de ordem interna que comprometem o externo criando desâmino, depressão e cansaço, e naturalmente outros sintomas como irritabilidade excessiva, enxaquecas, infecções repentinas, gastrite, hipertensão, displasias, constipação? “Tornar-se surdo diante dos apelos da alma pode trazer significativas conseqüências até para o organismo”, afirma Joseph Campbell.
Pois bem, as separações são inegavelmente necessárias. Elas fazem parte de um contexto, que habitualmente tentamos negar, mas que se fazem presentes de diferentes maneiras, ora manifestando-se imperceptivelmente, ora mais violentamente. Separar-se de padrões que não nos cabem mais exige coragem, ação do coração, pois o caminho à frente é definitivamente desconhecido. Apegar-se aos rótulos pessoais conhecidos, ou as pseudoidentidades e papéis que o mundo contemporâneo nos pede é manter o controle e o apego, desnecessário a continuidade de nosso caminho. É se iludir com a falsa liberdade, muitas vezes conhecido como emprego, dinheiro, bens e casamento. A alma negada sempre encontra um local para tocar.
Alberto Caeiro talvez dissesse:
“... O que nós vemos das coisas são as coisas.
Porque veríamos nós uma coisa se houvesse outra?
Porque é que ver e ouvir seria iludirmo-nos
Se ver e ouvir são ver e ouvir?
O essencial é saber ver,
Saber ver sem estar a pensar,
Saber ver quando se vê,
E nem pensar quando se vê,
Nem ver quando se pensa.
Mas isso (triste de nós que trazemos a alma vestida!),
Isso exige um estudo profundo,
Uma aprendizagem de desaprender
E uma sequestração na liberdade daquele convento
De que os poetas dizem que as estrelas são as freiras eternas
E as flores os penitentes convites de um só dia,
Mas onde afinal as estrelas não são senão estrelas
Nem as flores senão flores,
Sendo por isso que lhes chamamos estrelas e flores...”
Bom, preciso ir, tenho mais relações a continuar...