INTRODUÇÃO HISTÓRIA DO PENSAMENTO TIPOLÓGICO
Há muito tempo o homem tem a idéia de classificar as pessoas em determinados tipos de comportamentos e atitudes. Como nem todas as pessoas agem da mesma maneira diante dos mesmos eventos, e algumas agem de maneira semelhante a outras, numerosos sistemas de tipologia foram sendo criados ao longo do tempo para classificar e explicar semelhanças e diferenças entre as pessoas.
Podemos tomar como exemplo o siste¬ma do zodíaco chinês, que teve sua ori¬gem quando o imperador Huang Ti intro¬duziu o calendário lunar em 2637 a.C. Esse calendário incluía uma antiga lenda em que um Senhor Buda (não o Sidarta Gàutama), antes de despedir-se do mun¬do, convocou todos os animais para que viessem à sua presença. Vieram somente doze animais, e foram chegando na se¬guinte ordem: rato, boi, tigre, coelho, dra¬gão, serpente, cavalo, carneiro, macaco, galo, cão e javali. Como recompensa por terem vindo, ele lhes deu o domínio sobre cada um dos doze anos de um ciclo. As¬sim, quem nascesse no ano do rato teria traços de personalidade próprios do ani-mal simbólico do seu ano. Dizem os chi¬neses que o animal do seu ano de nasci¬mento é o animal que se esconde em seu coração.
Outro sistema bastante conhecido en¬tre nós é o sistema Yorubá. Na religião dos Orixás, cada pessoa é filha de um Orixá. Assim sendo, a pessoa adquire características de personalidade de seu Orixá de cabeça. Por exemplo: os filhos de Ogum tendem a ser impulsivos e voluntariosos, os filhos de Oxum tendem a ser sedutores e carinhosos, e assim por diante. Temos aí uma outra forma de tipologia, não deter¬minada pelo ano de nascimento, mas por um processo mágico-religioso identifica¬do através do jogo de Ifá ou jogo de búzios.
No entanto, o sistema mais conhecido mundialmente é o da Astrologia, que flo¬resceu entre os caldeus, na Mesopotâmia. Baseados no movimento do sol, da lua e dos planetas no cinturão de constelações conhecido como Zodíaco, podemos defi¬nir um signo solar para cada pessoa. Este signo fornecerá dados sobre as caracterís¬ticas de personalidade de uma determina¬da pessoa. Por exemplo: Se uma pessoa é do signo de Câncer, ela deverá ser sensível e emotiva; se de Touro, tenderá a ser um tanto determinada e inflexível; se de Leão, será autoritária e egocêntrica. Os signos do Zodíaco são classificados segundo os elementos constituintes da matéria — terra, ar, água e fogo —, havendo três signos para cada elemento. O elemento ao qual o signo de uma pessoa pertence também influencia bastante os traços de persona¬lidade que ela irá demonstrar.
Esse conceito de quatro elementos foi muito bem incorporado à medicina hi-pocrática (Hipócrates, 400 a.C.), em que se acreditava que as pessoas reagiam a secreções orgânicas ou humores: fleuma, sangue, bílis amarela e bílis negra. Essa teoria foi mais tarde aperfeiçoada por Galeno, que classificou os quatro tempe¬ramentos humanos: fleumático, sangüí¬neo, colérico e melancólico. O que carac¬terizaria a classificação de uma pessoa em um ou em outro grupo seria a maior quantidade de um dos humores em circulação no corpo.
Atualmente muitos ainda se utilizam desse sistema de definição de tipos, como por exemplo a pedagogia Waldorf, de Rudolf Steiner, e muitos dos grupos de orientação protestante norte-americanos.
Entretanto, a teoria clássica de Hipócrates apresenta uma desvantagem fun¬damental, a suposição de tipos puros, nos quais os temperamentos são tão clara¬mente definidos que seria possível carac¬terizar pessoas reais e classificá-las corre¬tamente. Isso torna essa tipologia hipocrá-tico-galena abrangente e genérica demais, justamente pela rigidez e falta de dinamis¬mo entre os tipos. Podemos dizer que não existem tipos puros, ou seja, uma pessoa sangüínea pode ter momentos de melan¬colia ou tornar-se fleumática em determi¬nada situação.
No período que separa o período grego do séc. XIX surgiram outros sistemas de classificação tipológica com base em su¬perstições e estereótipos sociais. Dentre eles podemos citar a quiromancia, a aná¬lise do temperamento pelas linhas das mãos; a fisiognomonia, que buscava defi¬nir o comportamento através da configu¬ração e expressão facial de alguém; e a grafologia, que buscava entender a per¬sonalidade através da análise da letra. Va¬le ressaltar que a grafologia tem se desenvolvido muito nos últimos anos no sentido de se criar um instrumento cientí¬fico aceitável para a análise da personali¬dade, e já tem sido muito utilizada na área de recursos humanos das empresas.
No séc. XVII, La Bruyère (1645-1696) descreve tipos cujas características ainda hoje são mantidas pelos estereótipos so¬ciais. Por exemplo, acredita-se que pes¬soas gordas são afáveis, bem humoradas e tolerantes, ao passo que pessoas altas e magras são mais nervosas, contemplati¬vas e intelectuais.
Em pleno séc. XIX, Cesare Lombroso ficou conhecido por criar a Antropologia Criminal, sistema de classificação personal no qual se afirmava que o criminoso nato possuía um tipo físico e psíquico especial. Lombroso identificava esses tipos físicos com a análise do formato da caixa cra¬niana, especialmente com uma parte que ele denominou de "fossa occipital média", encontrada nos criminosos. Atualmente as teorias de Lombroso estão esquecidas por falta de fundamentação empírica com-probatória.
As teorias modernas podem ser classi¬ficadas em três princípios de organização: 1° - Classificação dos tipos somáticos, em que o princípio orientador é a diferenciação na estrutura física (corpo);
2° - Classificação dos tipos somato-psíqui-cos, em que o princípio orientador é a interação da estrutura física com a estrutura dinâmico-funcional e estru¬turas psíquicas correspondentes;
3° - Classificação dos tipos psíquicos, em que o princípio orientador é a diferença entre estruturas psíquicas.
Como exemplo de classificação de ti¬pos com base em elementos somáticos, podemos citar a Escola Constitucionalista Italiana, representada por De Giovanni e Viola. Essa tipologia está baseada na relação entre tronco e membros, criando os tipos megalosplâncnico (gordo e baixo), normoplâncnico (atlético) e microsplânc-nico (alto e magro).
Exemplificando tipologias somato-psí-quicas, podemos apontar a obra de Franz Joseph Gall (1758-1828) como a primeira tentativa de correlacionar mente e corpo. Ele criou a frenologia, um sistema que buscava ser possível localizar sinais de tipo de atividade mental de alguém atra¬vés do estudo do formato da caixa cra¬niana. Gall foi o precursor dos estudos de localização cerebral, e influenciou a An¬tropologia Criminal de Lombroso.
Outra obra importante é o trabalho de Ernest Kretschmer (1925) que, partindo das definições psiquiátricas clássicas de Emil Kraepelin (1895) — a esquizofrenia e a psicose maníaco-depressiva —, desenvolveu uma tipologia somato-psíquica. Assim temos uma definição de tipo físico (pícnico, atlético, leptossômico e displá-sico) acompanhada de sua definição psí¬quica correlata (ciclóide ou esquizóide). Segundo Kretschmer, a constituição físi-ca corresponde a determinados traços de personalidade, e a pessoa poderá ser clas¬sificada em um dos dois campos de defini¬ção de Kraepelin.
Outro grande pesquisador de tipologia somato-psíquica foi W. H. Sheldon (1898-1977). Ele acreditava que a unidade psi-cossomática advinha principalmente de atividades endócrinas. Para avaliação ti-pológica ele criou uma escala de sete pon¬tos para cada um .dos três aspectos de somatotipos. São eles: endomórfico, meso-mórfico e ectomórfico, correspondendo respectivamente aos temperamentos visce-rotônico, somatotônico e cerebrotônico. Podemos notar três tipos básicos: endo¬mórfico-viscerotônico (baixo e gordo), mesomórfico-somatotônico (atlético) e ectomórfico-cerebrotônico (alto e magro).
Nas descrições anteriores, apresentamos tipologias que se baseiam em aspec¬tos físicos (tipologias somáticas) e na interação entre aspectos físicos e psíqui¬cos (tipologias somato-psíquicas). A se¬guir, trataremos da tipologia desenvolvi¬da por Carl Gustav Jung (1875-1961), como o grande exemplo de tipologia estrita¬mente psíquica.
CAPÍTULO 1 ORIGENS DA TIPOLOGIA JUNGUIANA A origem da tipologia junguiana, dife¬rentemente dos estudos tipológicos ante¬riores, surge como um dos principais fru¬tos do desenvolvimento dos estudos sobre o inconsciente e o consciente, e das desco¬bertas científicas e pessoais de dois grandes pesquisadores da alma humana, Sigmund Freud e Carl Gustav Jung.
A possibilidade da existência do in¬consciente era uma realidade desde os antigos hindus, com o conceito de karma (um elemento presente na vida das pessoas que determina certos eventos e no en¬tanto é desconhecido à própria pessoa). Santo Agostinho (354-430) comenta que "não consigo apreender tudo quanto sou".
Dentre os filósofos mais modernos, foi Gotfried von Leibnitz (1646-1716) quem primeiro formulou claramente o incons¬ciente, referindo-se "às pequenas percep¬ções de que não somos conscientes". Po¬demos ainda citar Kant, von Schelling, Hegel, Schopenhauer, Carus, von Hart-mann e Nietzsche.
Além dos filósofos, outro grupo foi muito importante na codificação do in¬consciente. Foi o dos hipnotizadores. Mesmer (1734-1815), idealizador da téc¬nica do mesmerismo, magnetismo animal ou hipnotismo; Charcot e Janet, voltados para o estudo da histeria.
Dentre os psicólogos podemos apontar o trabalho de Francis Galton (1822-1911), que desenvolveu o teste de associação de palavras, reelaborado mais tarde por Jung, e que influenciou Freud no desenvolvi¬mento da técnica de associação livre. Além dele podemos citar Theodore Flournoy que, de sua pesquisa com a médium Catherine Muller, chegou à conclusão de que_o inconsciente tem uma capacidade mitopoética, qual seja a de criar histórias, contos, mitos e personagens de profunda expressão literária.
No final do séc. XIX muita coisa já se sabia sobre o inconsciente. Por exemplo: que muitos processos de pensamento e percepção ocorrem sob o limiar da cons¬ciência; que o inconsciente armazena lem¬branças e percepções inúmeras; que o inconsciente incorpora atividades auto¬máticas criadas com esforço no conscien-, te e, ainda, a existência de uma função mitopoética, na qual o inconsciente pro¬duz mitos, histórias, sonhos, símbolos e alucinações. O inconsciente é dinâmico e interacional e, além disso tudo, desco¬briu-se que existem subpersonalidades autônomas sob a consciência.
Toda essa série de antecedentes preparou o caminho para que Freud pudesse desenvolver sua pesquisa e criar sua teo¬ria do inconsciente. A influência de Charcot e Breuer no pensamento de Freud foi muito marcante, e assim vem à luz o sistema da psicanálise. Freud aproveitou muito de seus antecessores, mas foi muito além de seus mestres Charcot e Breuer, desenvolvendo um caminho próprio.
Na época em que se associou a Freud, Jung era médico assistente no hospital de Burghõlzli, na Suíça, sob orientação de Bleuler. Ele já havia publicado seu traba¬lho "Estudos sobre a associação de pala¬vras", quando leu "A interpretação dos sonhos" de Freud. Jung aproximou-se de Freud por afinidade científica, o que os le¬vou a uma afinidade pessoal e a uma só¬lida amizade, ainda hoje erroneamente interpretada como discipulado.
Jung achegou-se a Freud como colaborador, pois muitas de suas idéias acerca da fenomenologia da psique já estavam articuladas (como a teoria dos complexos e o conceito de energia psíquica). Ele expôs inúmeras vezes sua dificuldade em aceitar a teoria da sexualidade, ao que Freud rebatia, insistindo na inexperiência do amigo. Outro ponto conflitante era quanto à natureza do símbolo, que para Freud era um sinal de algo bem conhecido, ao passo que para Jung o símbolo indicava algo inespecífico ou indeterminado.
Por volta de 1909 Jung já havia se irritado o suficiente com Freud, pois ten¬tava deixar bem claro que era um cientista independente e não seu principal ajudan¬te. Constelava-se em Jung o conceito de inconsciente coletivo que, uma vez for¬mulado, levou-o ao rompimento definiti¬vo com Freud.
Após o rompimento com Freud, Jung entrou em um período de crise (1913-1918), da qual emergiu sua maior contri¬buição para a psicologia. Foram anos de muito sofrimento e também de muitas descobertas.
Jung compreendeu que, além das complicações pessoais existentes, havia uma dimensão científica a ser levada em conta. O fato de dois pesquisadores sérios e ho¬nestos discordarem acerca de um mesmo ponto já é por si um problema psicológico sério. Procurarmos saber quem esteve certo ou errado é reduzir muito a questão. Jung sempre admirou as qualidades de Freud, e acreditava que essa disputa se baseava em diferenças fundamentais dos constructos hipotéticos de cada um e na maneira como cada um via a realidade.
Jung achou ser possível estudar o por¬quê das diferenças de compreensão da psique tanto do sistema de Adler, quanto do sistema de Freud e do seu próprio sistema. Ele reconhecia verdades na teo¬ria do poder de Adler, bem como na de Freud e em sua própria teoria. Assim, aplicou as teorias de Adler e Freud a um caso real de neurose e concluiu que os dois sistemas são úteis para compreender a neurose, mas são incompatíveis entre si. Esse estudo levou Jung a formular a seguinte questão:
"... será que existem pelo menos dois tipos diferentes de pessoas, um dos quais se interessa mais pelo objeto e o outro por si mesmo?" (Obras comple¬tas, vol. VII, § 36).
Essa questão levou Jung a identificar pelo menos dois tipos de pessoas, os extrovertidos e os introvertidos, respectivamen¬te. A possibilidade de se estabelecer, em bases científicas, uma tipologia funcio¬nal, ajudaria em muito a compreender vários problemas levantados até então. Auxiliaria a construção de uma teoria adequada sobre as relações consciente/ inconsciente, compreenderia de maneira científica o que os antigos sistemas tipológicos mágico/religosos tentaram codificar, ofereceria um sistema dinâmi¬co/funcional alternativo ao sistema de Sheldon e Kretschmer e, por último, po¬deria explicar as causas das divergências entre Freud, Adler e Jung.
(ZACHARIAS, J.J.M. Entendendo os tipos humanos. Vetor, 1995)